Um partido diferente, uma opção consciente

Venezuela, democracia e nós

2009-11-17 12:53

Venezuela Alberto Aggio*

Publicado no Comércio da Franca.

(14.11.2009) 

 Petistas são, em geral, figuras interessantes do ponto de vista da coerência. Quando questionados logo se apressam em dizer que estão sendo agredidos. Assumem invariavelmente a posição de vitimas. Não suportam a crítica. Confrontados com a realidade, ora afirmam uma posição ora outra na linha da “metamorfose ambulante” que estabeleceram como critério de ação. Pior ainda quando se critica a postura de Lula e de seu governo. Ai então o argumento é rápido, contrapondo-se ao “governo anterior”. Tudo fica polarizado, canhestro, simplista. Quando se referem às alianças políticas de seus críticos, se esquecem de mencionar a presença do Partido Progressista de Paulo Maluf et caterva no atual governo petista. Por essas e outras razões, Cassiano Pimentel, articulista deste Comércio, imagina que qualquer critica é devaneio pessoal e rancor anti-petista. Não pode admitir que, à esquerda, é possível ser critico ao PT e sua visão sobre o Brasil, a América Latina e o mundo.

Não sou eu mas o governo do PT que levanta agora a idéia (ou melhor, o devaneio) do Brasil grande potência, como na época do regime militar. Para Lula, o Brasil será em breve a quinta economia mundial! Pouco importa a universalização de uma educação de qualidade, a qualificação técnica e cultural, a perspectiva de um crescimento integral e pleno da pessoa humana, uma convivência democrática entre movimentos sociais e Estado, bem como uma cultura política plenamente democrática que aposte no equilíbrio entre os poderes e na sua reforma para melhorar e aprimorar o Estado brasileiro.

Ao contrário, hoje, os discursos grandiloquentes de revalorização do Estado Novo varguista e do estatismo do período militar passaram a fazer parte da semântica do governo Lula. Mais do que isso, a confusão entre Estado e governo, numa comunidade fraternal, visa eliminar toda oposição, trazendo todos os partidos para dentro do Estado. A perspectiva é desfigurá-los por completo, tornando-os todos “partidos estatais” sob a égide de um líder carismático. Isso coloca em risco latente o que o País avançou em termos de política democrática na resistência ao regime militar, com a conquista da Carta de 1988 que abriu espaço, pela primeira vez, a uma convivência plural entre atores políticos e sociais. A sugestão do coronel Chávez para que Lula continue no governo já que tem cerca de 80% de aprovação popular vai no mesmo sentido. Lula somente não cede porque as conquistas institucionais e democráticas das últimas décadas das quais o PT teve participação no mínimo duvidosa são ainda sólidas.

Desta forma, não há nenhum “escorregão intelectual” em aproximar, do ponto de vista reflexivo e político, o PT, seu governo e os militares. Na verdade, a aproximação é mais profunda: o PT, com o governo Lula, infelizmente, vem se tornando não mais do que um partido que visa reciclar a política da modernização conservadora entre nós mudar para continuar como antes. O apreço ao coronel Chávez por parte do governo Lula, do PT e dos petistas (em sentido pragmático e oportunista ou não), comungado pelo articulista Cassiano Pimentel ao defender o ingresso da Venezuela no Mercosul, a despeito da lateral e envergonhada crítica às suas condutas autoritárias e eludindo as clausulas democráticas que marcam a união dessas nações latino-americanas, é revelador de uma concepção política cujo nome tem que ser dito e não escamoteado numa retórica vazia e confusa.

* Alberto Aggio é professor de História da UNESP-Franca. 

Pesquisar no site

© Diretório Municipal do PPS de Franca (2009-2011). Todos os direitos reservados.

Loja virtual grátis